Jung – Vida e Obra – Uma memória biográfica

26/11/2003. “Jung – Vida e Obra – Uma memória biográfica”, de Barbara Hannah. O seguinte trecho me impressionou muito:

“Naquele tempo, encontrava-se próximo ao que chamava o ponto médio da vida, o qual situava por volta dos 35 anos. Jung muitas vezes enfatizou que a tarefa da primeira metade da vida seria a de deitar raízes na vida exterior. Ao construir a casa em Kusnacht, Jung havia dado conta dessa tarefa: ele havia adquirido prestígio dentro de sua profissão, tanto na Europa quanto na América, estava casado, a família aumentava e ele tinha agora sua própria terra e sua casa, onde finalmente poderia fixar suas raízes. Com efeito, mudou-se para Kusnacht com o firme propósito de abandonar o exercício exterior de sua profissão para dedicar-se à pesquisa.
Jung costumava dizer que ocorre uma mudança de direção depois do ponto médio da vida, chegando, então, o tempo de estabelecer raízes interiores. O objetivo não é mais o mundo, mas volta-se mais para uma ampliação e consolidação da personalidade. Acima de tudo, a meta da segunda metade da vida deixa de ser o mundo, passando a ser, em última análise, a inevitabilidade da morte. Esse é um objetivo repleto de sentido, muito embora em nossos tempos de materialismo exacerbado habitualmente se ignore tal fato. Isso não quer dizer que deixem de existir as obrigações com a vida na segunda metade dela; acontece que não mais precisamos ir em busca do mundo, por assim dizer, mas quando o mundo vem nos exigir somos obrigados a dar conta daquilo que nos solicita. Com efeito, o próprio Jung, embora não mais buscasse as tarefas de sua profissão, sempre aceitou suas obrigações quando vinham até ele. De modo que, quando deixou de iludir-se de que poderia deixar para trás o seu exercício profissional, ele por fim aceitou esse fato e deu início ao processo vitalício de dividir seu tempo e sua energia entre duas tarefas aparentemente conflitantes: um exercício profissional em expansão e a investigação de um conhecimento esquecido acerca do passado, suas novas idéias e seus escritos.”
 
Relendo em 2007:”Uma das coisas mais perturbadoras para todos os clérigos que levam seu ofício a sério – e para as famílias deles – é o olhar atento e crítico dos fiéis e dos conhecidos a tudo o que eles fazem ou dizem. Geralmente espera-se deles algo diferente, e é difícil sentir-se aceito como um ser humano comum.

Isso, penso eu, no fundo é resultado do fato de o cristianismo ser uma religião cujas metas são inacessíveis, pois ela não concede espaço suficiente para o lado sombrio do homem e, para todos os efeitos, tampouco para o lado sombrio de Deus. Todos os cristão sofrem constantemente de um mal de consciência, por acreditarem que deveriam estar vivendo uma perfeição completamente inatingível. Eles ingenuamente esperam que os clérigos saibam como fazê-lo, daí suas expectativas. Mas, uma vez que tais expectativas são inevitavelmente frustradas, sentem um tremendo sentimento de alívio, ou mesmo triunfo, quando observam as limitações dos pastores e de suas famílias.”

Livia D-X

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